APROXIMAÇÃO À INTERPRETAÇÃO JUNGUIANA DA LENDA DA LUA CHEIA DE MICHAEL ENDE

Irene Ulloa Ulloa

Irene Ulloa Ulloa é Estudante de último semestre de Psicologia (Pontifícia Universidade Javeriana). Contadora. O artigo que se oferece a seguir é o trabalho final apresentado na cátedra Seminário de Autor Contemporâneo Carl G. Jung, a final do primeiro semestre de 2003. Correio eletrônico: ulloairene@yahoo.com

Sendo a interpretação dos sonhos, contos, mitos e lendas uma arte e um ofício que se aprende com a prática e a experiência, este trabalho constitui uma primeira aproximação da autora à interpretação junguiana, no qual não só se pretende fazer uso do método junguiano de interpretação, senão também elucidar a maior quantidade de elementos psíquicos que se apresentam numa narração como é a lenda a partir da teoria junguiana (conceitos e princípios). De tal maneira, que o resultado não é somente a posta em prática de um conhecimento, senão também a manifestação dos conteúdos psíquicos conscientes e inconscientes da autora, bem como de seu tipo psicológico.

Tendo como objetivo a contribuição à análise junguiano da lenda da lua cheia, escrita por Michael Ende, considera-se importante partir de uma breve contextualización desta e de seu autor para posteriormente realizar a análise seguindo a metodologia empregada por Jung (1992) na interpretação dos sonhos, realizando a adequação a este tipo de narração. No entanto, para maior facilidade de sua leitura se apresenta em forma conjunta a estrutura, a análise do contexto, e a interpretação.

A obra e seu autor

O texto analisado da lenda “da lua cheia”, foi escrito por Michael Ende e foi publicado em 1995 em Barcelona pela editorial O arca de junior. Esta publicação, apresenta o texto em harmonia com belas ilustrações de Binette Schroeder, nascida em Hamburgo em 1939 , algumas das quais se apresentam neste escrito. Seu autor, Michel Ende, nasceu em Garmisch-Partenkirchen (Alemanha) em 1929, e em sua juventude estudou teatro e trabalhou como ator. Pela publicação de seu célebre livro Jim Botão e Lucas o maquinista lhe foi outorgado o Prêmio de Literatura Juvenil de Alemanha em 1961. Durante sua residência em Itália (1971-1985) escreveu Momo (Prêmio de Literatura Juvenil de Alemanha em 1974) e A história interminável. Suas obras, além das mencionadas foram premiadas em numerosos países e foram traduzidas a mais de trinta idiomas.

Antes de passar à análise, é importante recordar um pouco sobre este estilo literário. A lenda, é uma narração tradicional ou coleção de narrações relacionadas entre si de fatos imaginários mas que se consideram reais. A palavra procede do latim medieval legenda e significa “o que tem de ser lido”. A diferença do mito, que se ocupa dos deuses, a lenda plasma em general a um herói humano, como ocorre no caso da Iliada e a Odisséia, a Eneida ou o Cantar de meu Cid. São lendárias também as histórias que nutriram muitas novelas de cavalaria durante a idade média e que serviram de fonte a escritores de épocas posteriores: assim ocorre com a lenda do rei Arturo, com Carlomagno e com o alquimista alemão Fausto (Microsoft, 2000).

Passando à teoria junguiana, as lendas, ao igual que os mitos e outros materiais mitológicos, permitem chegar às estruturas de base da psique humana. As lendas possuem um rico conteúdo de elementos culturais, já que partem de experiências comentadas que se ampliam mediante a adição de elementos folklóricos próprios de uma cultura. Estas narrações expressam processos psíquicos do inconsciente coletivo, por meio de representações arquetípicas que permitem compreender os processos que se desenvolvem na psique coletiva, trata-se de subestructuras objetivas e impessoais da psique humana e não de aspectos individuais. No entanto, há que ter em conta que tanto uma lenda como um conto de fadas e um mito, não apresentam todos os fatores da psique, alguns fazem alusão à integração da sombra, outros à experiência do ánimus ou do ánima, etc. (von Franz, 1993).

Partindo do escrito por Marie-Louise von Franz (1993), as lendas compõem histórias arquetípicas que se constituem, a maioria das vezes, a partir de experiências individuais e têm como origem a invasão de algum conteúdo inconsciente, já seja um sonho ou uma alucinação em estado de vigília, onde estes supõem a irrupção de um conteúdo arquetípico numa vida individual, tratando-se sempre de uma experiência numinosa (força sobrenatural, impressão de sagrado que geralmente acompanha a aparição de uma imagem arquetípica).

Análise

Exposição


"Faz já muitos anos, (…) vivia num bosque longínquo, rodeado de montanhas, um piedoso ermitão. Em sua juventude tinha estado perdidamente apaixonado de uma dama à que todos consideravam um dechado de virtudes e de beleza. Ambos se tinham jurado fidelidade e amor eternos, mas num dia antes do casamento sua noiva rompeu seu juramento e fugiu com outro
homem.

 

(…) Passou muitos anos consagrado à leitura (…) Num dia. Pareceu-lhe que a terra se abria sob seus pés e que uma rajada de vento surgida do abismo lhe gelava o sangue nas veias. Aquela mesma noite abandonou para sempre sua casa e seus livros. Durante muito tempo vagou pelo mundo, até que chegou a certo vale apartado, onde achou uma gruta escavada na rocha e oculta no meio de um bosque. Jogo-se a dormir no solo e sonhou com um redemoinho de fogo do que surgia uma voz que lhe dizia: «Fica-te aí, eu irei a teu encontro».
(…) De vez em quando se adentrava no bosque para recolher bayas, frutos, tallos e raízes, dos que se alimentava; mas passava a maior parte do tempo sentado à entrada da gruta com os olhos fechados, absorto e imóvel. (…) Seu espírito vagava por outros mundos, uns mundos tão elevados e sublimes (…) mas nada tinha que fosse capaz de apartá-lo de seu diálogo com a eternidade. A paz de sua alma era tão profunda que nas proximidades da gruta inclusive as feras do bosque deixavam de atacar-se (…)
Num dia, o destino quis que chegasse àquele longínquo vale outro ser humano cuja vida não era menos solitária do que a do piedoso ancião, conquanto por razões completamente diferentes. Era um homem que tinha sido expulsado da sociedade, um hombretón feroz, de hirsuto cabelo vermelho, forte como um touro e tozudo como um mulo. Não temia nada, mas também não tinha nada que fosse capaz de inspirar-lhe respeito.
De muito jovem, e num arranque de ira, tinha matado a outro jovem que tinha deshonrado a sua amada. Sua vítima pertencia a uma família nobre. Como ele e sua amada eram de origem humilde, os juízes não consideraram que tivesse direito a defender seu orgulho nem honra e o condenaram a morrer mediante o suplício da roda. No entanto, o conseguiu fugir a véspera da execução.
Encontrou refúgio no bosque, onde se uniu a uma partida de salteadores de caminhos que eram todos proscritos como ele. (…) Num dia, depois de uma briga com o cabecilla da banda, toco-lhe escapar. A partir desse momento começou a atuar em solitário e a evitar a companhia de outros homens, já que agora o perseguiam todos (...) Uma profunda inquietude o impulsionava a mudar constantemente de esconderijo. (…) No entanto, o destino já tinha decidido que isto não podia seguir assim, de maneira que se fez inevitável que o bandido fora a parar ao longínquo vale onde habitava o ermitão."

 

Esta primeira parte da lenda indica o lugar, os personagens da ação e a situação inicial. O lugar onde se desembrulha a história é um bosque, o qual é considerado como natureza protetora e procuradora de alimento, é um símbolo do inconsciente, ponto de partida de viagens e aventuras. De acordo com o escrito por Emma Jung e Marie-Louise von Franz (1999), este representa o passo de um estado relativamente inconsciente a um de maior consciência. Ao estar rodeado de montanhas, situa ao ermitão no lugar onde começa a orientar-se, a adquirir firmeza e conhecimento de si.

Os personagens são um ermitão e um bandido. O primeiro, representa ao maestro secreto, aquela pessoa que trabalha no invisível, baseado na tradição o estudo e a reserva, que se submerge no trabalho paciente e profundo (Cirlot, 1992). O bandido representa à Sombra, aqueles rasgos, em sua maior parte escuros ou infravalorados do ermitão, que coexistem sem que o Eu consciente lhes preste excessivo atendimento; são rasgos de natureza emocional que gozam de certa autonomia e ocasionalmente extravasam a consciência; encarna os impulsos e emoções sombrias ainda não assimiladas, tais como ciúmes, ódio e paixão assassina (Jung e von Franz, 1999).

A situação inicial representa parte de um fato real, - o rompimiento do juramento por parte da noiva, quem ademais fugiu com outro homem-, experiência forte que leva ao jovem à busca e à viagem pelo inconsciente, início do processo de individuación. Mas este mesmo fato, vai alimentar a sua Sombra, quem vive a experiência de maneira diferente, já que o jovem em sua psique mata ao outro homem por deshonrar a sua amada, e seu Ego, atuando como juiz, condena estes conteúdos à morte por considerá-los impulsos incivilizados, øreprime-os de tal forma que são enviados ao saco da Sombra, onde se encontram todos os aspectos reprimidos de sua personalidade. De tal maneira que, enquanto o jovem vagou pelo mundo, viagem ao inconsciente, transferindo seu centro de interesse desde o mundo exterior para o mundo interior em procura de uma espiritualidade sã; o bandido, sua Sombra, segue cometendo travessuras, provendo-se assim de energia.

Fato importante desta situação inicial o constitui o sonho do ermitão, onde uma voz lhe diz: “Fica-te aí, eu irei a teu encontro”. Este tipo de mensagens é muito frequente quando se está iniciando um processo de individuación, de busca do conhecimento de si mesmo e de uma espiritualidade sã. Estes emergem do mais profundo do inconsciente, e neste caso, não só está indicando que se está no lugar correto, senão que também deve esperar ali o encontro com “alguém”, de tal maneira que põe sobre aviso para que se esteja atencioso e chegado o momento se lhe possa reconhecer.

Durante este processo de individuación iniciado pelo ermitão, cuja meta é o desenvolvimento da personalidade individual, implicando uma crescente percepção da realidade psicológica, incluindo fortalezas e limitações pessoais, dá-se o encontro com o bandido, seu oposto, sua Sombra (Sharp, 1997).

Desenvolvimento

Foi num dia ao entardecer (…) O salteador de caminhos tinha descoberto um jovem veado e começou a perseguí-lo (…) De repente, o animal se deteve e 1ou olhou de testa (…) Não parecia assustado nem cansado, só 1ou olhava atenciosamente com seus grandes olhos, e não teve valor para disparar a flecha.
(…) Confuso, olhou a seu arredor. Então descobriu a entrada da gruta e, sentado no umbral, ao ermitão (…) O bandido se acercou ao ancião e o observou durante um bom momento, incapaz de adivinhar que ou quem demônios era aquele ser que tinha diante. (…)
O ancião seguia imóvel (…) O bandido alçou o punho para acordá-lo de um bom golpe, mas ao cabo de um momento voltou a baixá-lo. (…) Ao cabo de umas horas, quando o ermitão voltou desde o reino do sublime a seu pobre e frágil corpo terrenal e abriu os olhos, descobriu, ao luar, que a seus pés jazia um homem ruivo de aspecto feroz que dormia como um menino.
O ancião olhou com afeto paternal àquele estranho que Deus lhe enviava e decidiu convertê-lo em seu discípulo para instrí-lo nos assuntos da eternidade (…) o maestro nunca esquecia exortar a seu discípulo a arrepender-se da vida pecadora que levava e a rogar a Deus que se apiadara dele.

 


(…) A sua maneira, tratava de demonstrar a gratidão que sentia por seu maestro trazendo-lhe presentes (…) Mas, invariavelmente, o ermitão rejeitava seus presentes e o aleccionaba pacientemente: -Não é isso, filho meu. Não deves tratar de mudar minha vida. És tu quem deve mudar de vida se não queres ser presa de Satanás (…)
O bandido calava entristecido, porque lhe resultava impossível cumprir o desejo do ermitão. Ainda que punha o maior empenho em isso não podia arrepender-se, e de jeito nenhum queria mentir a seu amigo, pelo que sentia um profundo respeito (…) A bondade e a paciência do eremita eram tão grandes como a tenacidade e a oposição de seu discípulo (…)
Mas então sucedeu algo que 1ou encheu de consolo e que fez mudar a situação, ainda que esse algo nada tinha que ver com o discípulo díscolo, senão com o sonho que tinha tido anos atrás e com a promessa que lhe tinha sido feita naquele sonho.
Na seguinte visita do bandido, o ermitão lhe advertiu: -Filho meu, a partir de agora nunca deverás visitar-me numa noite de lua cheia. Promete-me que me obedecerás. -Está bem -respondeu este-, mas por que?. -Me foi concedida uma graça -contestou o ermitão-, mas teu entendimento está demasiado obnubilado como para que possa confiar-te meu segredo; portanto, não me perguntes mais.
(…) Durante muito tempo, a vida de ambos seguiu como antes. No entanto, conquanto o bandido era certamente inútil como discípulo da sagrada doutrina, possuía uma capacidade imprescindível para o gênero de vida que levava: nada, nem sequer o detalhe mais insignificante, escapava a seus dotes de observador. Assim, deu-se conta de que o ermitão começava a mudar pouco a pouco. Ao princípio não foi uma mudança visível: seu aspecto e seu comportamento eram os de sempre; mas, não obstante, advertiu que o espírito de seu venerado mestre se afastava cada vez mais dele (…) Esperava do que o ermitão falasse quando 1ou cresse oportuno, e a este, certamente, não lhe passava inadvertido o interrogante que se desenhava no rosto de seu discípulo. Com todo, decorreram sete meses antes de que o maestro se decidisse a revelar-lhe seu segredo.

 

Nesta seção da narração se observa como o encontro entre o bandido e o ermitão está mediado por um veado, o qual simboliza um fator inconsciente que indica o caminho que conduz a um acontecimento crucial, é um guia para o inconsciente. Este símbolo faz o papel de uma ponte que conecta com as capas mais profundas da psique, levando para um novo conhecimento conciente (von Franz, 1993).
Ao ser o bandido quem descobre ao ermitão, se evidência uma progressão da energia psíquica para a consciência. A Sombra se manifesta mas, num primeiro momento não é reconhecida, o ermitão não desperta de seu estado profundo; no entanto, em seu processo de individuación consegue fazer conciente a presença do bandido, consegue reconhecer a sua Sombra e tenta reconciliarse com ela tratando de transformá-la. Neste processo o bandido trata de demonstrar-lhe a gratidão que sente por seu maestro trazendo-lhe presentes, adquiridos por meio do furto, os quais são rejeitados pelo ermitão. O anterior representa as diferentes manifestações da Sombra as quais são reconhecidas conscientemente pelo ermitão, quem trata de aleccionarla, o que costuma denominar-se em terapia, trabalho com a Sombra. Há que ter presente que este processo seguido pelo ermitão se dá unidireccionalmente, o maestro procura transformar ao bandido sem que este o transforme a ele, o que posteriormente traz conseqüências.
Com o decorrer do tempo o ermitão reconhece a dificuldade de mudar ao bandido, a sua Sombra. Por isso, uma vez ao ermitão lhe é concedida uma graça considera que é melhor do que seu discípulo não vá visitá-lo as noites de lua cheia. Na antigüidade, a lua foi relacionada com deusas, com o feminino e hoje se conserva parte da atitude arquetípica associando à lua com o amor e o romantismo (Jung, von Franz, Henderson, Jacobi e Jaffé, 1969). A lua cheia representa o símbolo do círculo, do sim- mesmo. De acordo com o escrito por Aniela Jaffé, em Jung e outros (1969), o círculo expressa a totalidade da psique em todos seus aspectos, o qual aparece no culto aos astros, em mitos e sonhos, em desenhos mandalas dos monges tibetanos, etc., assinalando sempre o aspecto mais vital da vida, o completamiento definitivo.
Igualmente, os sete meses que decorreram antes de que o ermitão revelasse seu segredo, representam a totalidade. Simbolicamente o 7 é o número da perfeição, da plenitude, a totalidade: há 7 dias da semana 7 astros que regem o zodíaco, 7 notas musicais, 7 cores no arco iris, etc. O 7 tem um papel importante nos relatos bíblicos, por exemplo, no Dilúvio (Génese 7, 1-4), Noé deveu escolher 7 casais de animais puros, 7 casais de pássaros do céu, foram 7 nos dias de trégua antes de que o Dilúvio caísse sobre a Terra, e ainda, Noé esperou 7 dias e soltou de novo a pomba fora do arca; outro exemplo é a construção da Casa “de Yahvé” por Salomón, a qual durou 7 anos (2 Reis 4, 32-35). O número 7 está presente 77 vezes no Antigo Testamento e constitui o eixo central do Apocalipsis de Juan, que fecha o Novo Testamento e faz alusão às 7 Igrejas, aos 7 selos, aos 7 anjos sustentando 7 trombetas, aos 7 signos, às 7 pragas, às 7 copas. O 7 também se encontra nos contos de fadas, no conto de Pulgarcito, este tem 7 irmãos e o ogro calça umas botas que lhe permitem dar passos de 7 léguas. Assim mesmo, Branca de Neve se refugia na casa de 7 enanitos. (Salvat, sfp).
Nesta lenda a lua cheia e os sete meses se apresentam como uma antecipação à totalidade, a qual está fora do alcance do ermitão, já que há que recordar que este personagem se encontra num processo de individuación, de busca da totalidade, acha-se concentrado e preocupado por um centro, o si-mesmo (Sharp, 1997).
A petição do ermitão ao bandido, dá-se a maneira de proibição, o qual indica a existência de algo estranho e muito importante que requer do isolamento e repressão da Sombra por ser incompatível com a atitude consciente que se reflete na Pessoa. É uma resistência natural que se opõe ao desenvolvimento de uma consciência mais alta, conservando o inconsciente apagado para manter o instituído socialmente ou o que é considerado como o Bem. O produto desta inconsciencia negativa é a escravatura do ermitão às instituições sociais ancestrais, impedindo assim seu desenvolvimento para um novo estado de consciência.

Clímax

-Filhio Filho meu -lhe disse-, não crias que te fiz prometer que não virias nas noites de lua cheia para castigar-te. A razão é que me sucedeu algo maravilhoso, algo que me sucede ainda. Tens de saber, filho, que no reino dos espíritos celestiais o arcángel Gabriel é o senhor da lua. Pois bem, nas noites de plenilunio, o arcángel Gabriel em pessoa desce do céu e me visita.
(…) Como é? -perguntou.
-Mais belo e nobre do que posso descrever com palavras. Viaja numa carroça atirada por torneiras; na mão leva um lírio, símbolo do amor sem mácula e da pureza, e vem pelo ar desde aquele extremo do bosque, porque para sua carroça o luar é como um caminho sobre terra firme.
(…) O bandido 1ou olho com admiração e masculló: -Pois vá com a notícia, ¡que Deus me confunda!
O ermitão lhe lançou uma mirada apesadumbrada e exclamou: -¡Ah, filho meu! Se pelo menos pudesses deixar de amaldiçoar. Mas já vês tu mesmo por que tive que te proibir que viesses nas noites de lua cheia. ¡Imagina que poderia suceder!
(…) Tinha uma coisa que tinha preocupado ao bandido. Desde fazia um tempo, os animais já não se acercavam à gruta do ermitão. Se algum se extraviava por aqueles lugares, fugia tão cedo como o se acercava. Inclusive, num dia sucedeu que um azor se apoderou de uma criança de coelho junto à entrada da gruta, justo ao lado do ancião, que estava sumido numa profunda meditação. O bandido comunicou sua preocupação a seu maestro, mas advertiu que este não se tinha dado conta de nada. (…)

A revelação do segredo, apresenta-se como um momento em que cede a resistência, diminuindo a tensão entre a consciência e o mundo dos instintos, onde se trabalha com a sombra mas ainda não é integrada.

A descrição do arcángel Gabriel, nesta narração, interpreta-se como a identificação do Bem, através do qual o ermitão vai construindo uma Pessoa, sem dar-se conta, em seu processo de individuación. Vai tomando do exterior normas e regras que orientam sua conduta sem ter em conta que dentro dele está a possibilidade de eleger. Esta pessoa está constituída pelos aspectos ideais de um homem espiritual que são aceitados e dignos de ser apresentados ao mundo externo. De tal maneira que, quando o bandido amaldiçoa, o ermitão encontra a justificativa a sua proibição, já que se este aparece nas noites de lua cheia, as mesmas em que aparece o arcángel, poderia suceder um desastre. Isto é, as manifestações da Sombra poderiam mancillar a Pessoa presente às ocasiões determinas pelo ermitão. O anterior assinala a luta entre o Bem e o Mau na psique do ermitão, quem identifica sua Sombra com o Mau sem ver os aspectos positivos que esta possui.

Assim, mostra-se a ausência de reconciliação com a Sombra, já que num processo de individuación não basta com reconhecê-la há que a confrontar para depois integrá-la, o que o ermitão faz é simplesmente reprimí-la voluntariamente e, por isso, esta segue no inconsciente. Também, há que ter presente que, como resultado de toda confrontação com a Sombra, ambas partes devem sofrer alguma mudança, o qual esta restringido neste caso dado o caráter unidireccional que lhe dió o ermitão ao processo (Sharp, 1997).

Finalmente, a preocupação do bandido pelo que lhe está sucedendo ao ermitão, revela seu lado positivo. A Sombra não é só o lado escuro da personalidade, também contém instintos, impulsos criativos, habilidades e qualidades morais positivas, as quais também devem ser reconhecidas e aceitadas (Sharp, 1997). Isto se evidência no seguinte aparte da lenda: Conquanto o bandido era certamente inútil como discípulo da sagrada doutrina, possuía uma capacidade imprescindível para o gênero de vida que levava: nada, nem sequer o detalhe mais insignificante, escapava a seus dotes de observador. Assim, deu-se conta de que o ermitão começava a mudar pouco a pouco. Mudanças que se revelam em seu exterior e o mais exterior o constitui a Pessoa, mas o ermitão não é consciente de suas próprias mudanças, cobre-o um véu que não o deixa perceber os aspectos negativos; na busca da espiritualidade e a sabedoria, só aprendeu a reconhecer e adotar o Bem sem questionar-se a respeito da natureza deste.

Desenlace

"Quando Quando chegou a seguinte noite de lua cheia, já tinha tomado sua decisão. Tão cedo como escureceu, pegou o arco e as flechas e, fazendo caso omisso de sua promessa, dirigiu-se discretamente à gruta (…)


Naquel momento a lua cheia começou a elevar-se majestosamente acima dos ramos das árvores e inundo o mundo com sua luz plateada. (…) além das copas das árvores, um forte resplendor. (…) Primeiro surgiram as duas torneiras, uns grandes seres alados com cabeça de águia e corpo de leão (…) Depois se viu a carroça do que atiravam. Parecia feito de safira Na carroça ia um personagem rodeado de um halo de luz suave e poderosa ao mesmo tempo. (…)


"O ermitão se tinha inclinado profundamente e permanecia com a testa no solo. O bandido, que se tinha ficado boquiabierto contemplando aquela aparição, fez um esforço por sair de seu assombro (…) Muito devagar pôs uma flecha no arco, apontou cuidadosamente e disparou. A flecha assobiou no ar e se fincou no pescoço da figura luminosa.
(…) O ermitão, que se tinha incorporado ao ouvir o apito da flecha, tinha contemplado a cena horrorizado. Quando se deu a volta e advertiu a presença do bandido o increpou duramente: -¡Filho de Satanás! (…) Que fizeste, desgraçado perjuro? Talvez não tinhas cometido já suficientes pecados?
(…)-Escuta -repôs o bandido-, antes de enviar-me ao inferno diretamente e para sempre, vêem comigo a ver que passou. (…) -O vês? -disse o bandido (…)
O ermitão olhava absorto o cadáver do tejon. Por fim sussurro: -Como pudeste adivinhar a verdade, filho meu, se nem eu mesmo fui capaz de descobrir o engano?
-Muito singelo -explicou o bandido-, tu me tinhas dito que só os santos podem ver as coisas santas. Por conseguinte, não tem nada de estranho que tu, um homem sábio que leva uma vida de santidade, possa ver ao arcángel Gabriel. Mas eu, que sou um pecador e um ignorante, vi-o igual que tu. Então me disse que aqui tinha gato encerrado. Por isso disparei.
(…)-Que te passa? -perguntou o bandido, solícito.
-Estou envergonhado -contestou o ermitão, com voz entrecortada.
-Por que? -perguntou o bandido, surpreso.
-Porque, em minha presunção, pensava que tinha que salvar tua alma -respondeu o ermitão-, mas foste tu quem salvou a minha. Cumpriu-se a promessa que recebi em sonhos mas de uma maneira muito diferente de como eu esperava. Cumpriu-se através de ti, não te dás conta?
(…) Em qualquer caso, dei-me conta de que tenho que voltar a começar pelo princípio e quisesse que teu me ajudasses. Vamos."

 

Nesta etapa final da lenda, mostra-se num primeiro momento como se fortalece o bandido armando-se com um arco e flechas. O arco simboliza um veículo de energia, implica a profunda idéia de tensão, e a sua vez, corresponde à força vital ou espiritual. O arco e as flechas simbolizam a energia solar, seus raios e sua potência fecundante e purificadora (Cirlot, 1992). É uma Sombra que se carrega de energia psíquica para fazer uma nova tentativa de sair à consciência mais forte que antes, mas em seu aspecto positivo.

A aparição do arcángel carregada de luz e precedida por duas torneiras, corresponde a uma visão numinosa. Onde as torneiras são seres fabulosos nos que se misturam dois animais superiores e solares que expressam um caráter benéfico. A torneira, como certas formas de dragão se acha sempre como vigilante dos caminhos da salvação; também simboliza a relação entre a energia psíquica e a força cósmica (Cirlot, 1992). É este caráter numinoso unido à interiorización dos aspectos positivos o que faz que o ermitão, dominado por eles não duvide da natureza do Bem que se apresenta ante seus olhos.

De tal maneira que, o ataque do bandido à imagem do arcángel, não e tem mais do que a luta entre o Bem e o Mau na psique do ermitão, luta superior a suas forças que se apresenta como uma questão de vida ou morte. É uma luta de opostos, onde por trás deles, e neles mesmos, está a verdadeira realidade que vê e abarca todo (Jung, 2001). Por isso, a primeira reação do ermitão ao ver que o bandido tinha ferido a imagem do arcángel foi increpá-lo. O ermitão só vê o caráter de maldade em seu discípulo. Mas quando vê que realmente não era um arcángel senão um animal, dá-se conta de seu erro, de que tem estado cego e enganado. É o momento em que descobre as verdadeiras qualidades do bandido: reconhece que o Mau, -identificado com a Sombra-, em realidade é bom, só que não o podia ver dado seu limitado ponto de vista.

A transformação do arcángel em tejon, representa o desenmascaramiento do Mau no Bem. É uma maneira de mostrar como o bom, no momento e lugar inadequados, pode ser o mais errôneo (Jung, 2001). Esta cena revela a existência de um sentido não compreendido ainda, é um momento no que se faz luz sobre o oculto; luz que inesperadamente prove da Sombra, o qual não era contemplado pelo ermitão, ele nunca esperava nada bom do bandido, não via nele qualidades, e ainda mais, considerava que este não podia fazer nada por ele; por isso, sua função como sábio devia ser o transformar a seu discípulo, salvar sua alma. De ali que a vergonha que sente é produto do reconhecimento de seu erro, do ter subestimado a seu discípulo e sobre-estimado a si mesmo. Neste sentido, compreende-se que a Sombra só é má durante o tempo que sua função é incompreendida.

Ao reconhecer o ermitão o fato de que foi o bandido quem salvou sua alma, e que é a ele a quem se referia a voz do sonho, está reconhecendo a verdadeira essência de sua Sombra e a necessidade de integrá-la: verdadeiro significado da mensagem enviada pelo inconsciente em seu sonho. De ali, que a Sombra contribui um novo impulso ao processo de individuación e afirmação criativa de toda a vida.

De tal maneira que, a finalidade tanto do sonho, como da lenda, é a necessidade de seguir um processo de individuación no que se integrem todos os aspectos da psique, onde não basta com reconhecê-los e submetê-los a vontade, senão também integrá-los a partir da descoberta de seus aspectos positivos e negativos, o qual vai enriquecer o auto-conhecimento, e portanto, leva a atingir um maior estado de consciência que permita acercar-se cada vez mais à totalidade, como integração dialéctica de todos os componentes. Ademais, ressalta-se a importância de ver a individuación como um processo que se leva a cabo durante toda a vida; fato que reconhece o ermitão ao dar-se conta que tem que voltar a começar pelo princípio e com ajuda de seu discípulo. Assim, a individuación constitui um processo recorrente, que deve voltar sobre si mesmo para retroalimentarse.

Como se evidenció anteriormente, o conflito psicológico que se elabora nesta lenda corresponde à luta entre o Bem e o Mau no processo de individuación quando se tem um encontro com a Sombra. Para Jung (2001), quando se fala destes, está-se fazendo referência ao que uma pessoa considera bom ou mau, já que partem de um juízo subjetivo onde só Deus tem a última palavra e onde se exige reagir como totalidade. A luta entre o bem e o mau é uma realidade que se encontra em diversas situações nas que se está imerso na vida cotidiana, são situações nas que se deve fazer uma valoração ética. Por isso, o enfrentar-se com a Sombra faz que alguns dos definidos e claros valores com os quais se viveu durante muito tempo se revelem inadequados para enfrentar-se a determinados problemas (Robertson, 2002).

Em muitos casos, as pessoas que vêem sua Sombra, seu lado escuro, apartam a vista dela e fogem, não a enfrentam, e depois se ufanan ante os demais de ser boas. Em outros, como no caso do ermitão, as pessoas reconhecem sua Sombra, interactúan com ela mas a reprimem de maneira consciente. Finalmente, encontram-se pessoas que ao colocar-se frente a sua Sombra também vêem seu lado luminoso, isto é, percebem sua Sombra e sua Luz colocando-se no meio, por isso diz Jung (2001) que: “Por trás dos opostos, e nos opostos, está a verdadeira realidade que vê e abarca o todo” (p. 429).

No processo de individuación se faz necessária a integração da Sombra, o qual não só consiste em enfrentar-se com os conteúdos do inconsciente pessoal, senão ademais com o problema do mau, como aspecto inseparável do bem. Para Jung, em Jung e outros (2001), a resposta ao problema do mau se encontra no auto-conhecimento, na aquisição do maior conhecimento possível da totalidade do indivíduo, descobrindo qual é a capacidade que se tem para fazer o bem e daí males se podem cometer. Por isso, para evitar o sucedido ao ermitão e viver livre de enganos e ilusões, deve-se ser o suficientemente consciente para não crer que o bem é real e que o mau é ilusório, compreendendo que ambos fazem parte constitutiva da própria natureza.

Este processo requer de decisão, paciência e valor. A aparição da sombra tende a curar os excessos e impulsiona ao compromisso mais consciente com o processo do próprio desenvolvimento. Ao respecto Robertson (2002) escreve: “Todo mudança se inicia na escuridão do alma humana” (p.13), “É impossível tratar com o mau simplesmente evitando-o (…) Ninguém pode chegar à plenitude sem passar antes pela escuridão” (p.159). Seguindo a este autor, deve-se aclarar que a Sombra não é exatamente a parte escura e malvada da personalidade com a que há que reconciliarse de alguma forma, esta também contém tudo o que se pode chegar a ser, é uma primeira mirada ao Eu, é a parte que mais se acerca à divindade. No mesmo sentido, John A. Sandford, entrevistado por Patrick Milhar, em Jung e outros (2001), estabelece que “a Sombra não sempre é o mau, a sombra é unicamente o oposto ao ego. Jung disse que a sombra contém um noventa por cento de ouro puro. O que se reprimiu encerra uma tremenda quantidade de energia e contém, conseqüentemente, um grande potencial positivo” (p.54).

O processo de individuación, vai da mão com a espiritualidade. Já seja um religioso, um profissional, um técnico, um doutor, etc., para aceder a uma atitude religiosa e uma espiritualidade sãs, deve manter uma constante e cuidadoso atendimento à experiência numinosa que sucede durante a comunicação entre sua Eu e sua Si-mesmo, o qual se tem de converter numa meditação diária, canalizando a energia de seu instinto religioso. Por isso, Jung concebia a religião como uma atitude de uma consciência transformada pelas forças numinosas e a experiência pessoal do poder numinoso dos arquétipos que dão sentido à vida; de tal maneira que esta atitude, permite vivenciar o divino. Deve-se somar a experiência individual ao conjunto da posse comum da tradição religiosa, -cultos e rituais-, em cujos símbolos se podem encontrar equivalentes da própria experiência psíquica, já que são comunicadores da presença divina, que devem ser vividos, utilizados e devolvidos à vida pessoal e comunitária, para submetê-los à atitude religiosa. (Ulanov, Ann)

Mas na busca da espiritualidade e na vida religiosa há que ter cuidado. Geralmente as religiões procuram a luz e descartam a escuridão esquecendo que a vida é complexa, que o bem e o mau não são sempre fáceis de distinguir, e que a escuridão pode ser simplesmente o desconhecido (Robertson, 2002). Como o ermitão da lenda, muitos religiosos, crêem ter terminado seu processo e crêem levar uma vida espiritual e religiosa sã. São aquelas pessoas cuja Máscara é resplandeciente como o arcángel da narração, mas simplesmente são o tejon, já que reprimem seu lado escuro e se apresentam falsamente como bondosas ou praticam as virtudes religiosas por medo às conseqüências. Também se encontram aqueles que se isolam da sociedade crendo que assim podem manter sua espiritualidade, não há que negar que é reconfortante ter momentos de solidão que permitam avançar no processo de individuación, mas como conseguir uma totalidade sem os outros?

A atitude religiosa e espiritualidade sãs devem implicar uma transformação, um converter-se num mesmo, é um processo para o auto-conhecimento conciente como totalidade, cujo centro é o Si-mesmo. Do mesmo modo, deve dar-se a reconciliação com a Sombra, com todos aqueles aspectos ocultos ou inconscientes que o Ego reprimiu ou que não reconheceu; há que chegar a um entendimento psicológico da Pessoa como função de relação com o mundo externo que permita assumí-la ou abandoná-la a vontade sem permitir identificar-se com ela; também, deve-se incluir como parte da identidade yoica os aspectos contrasexuales de ánima e ánimus, convivendo em harmonia com ambos. Todo isso se pode consegue através de métodos como o de imaginação ativa, a interpretação dos sonhos e a terapia analítica, os quais, ajudam no desenvolvimento do processo de individuación, cujo objetivo é familiarizar-se com a realidade psicológica, o qual implica uma maior percepção de dita realidade.

 

 

REFERENCIAS

Cirlot, Juan-Eduardo. (1992). Diccionario de símbolos. Madrid: Ed. Labor.

Ende, M. (1995). La leyenda de la luna llena. Barcelona: El arca de junior

Jung, C. (1992). Energética psíquica y esencia del sueño. Barcelona: Editorial Paidós.

Jung, C. (2001). Civilización en transición. Obra completa volumen 10. Madrid: Editorial Trolla.

Jung, C., von Franz, M.L., Henderson, J., Jacobi, J. y Jaffé, A. (1969). El hombre y sus símbolos. Madrid: Aguilar.

Jung, C. y otros. (2001). Encuentro con la sombra. El poder del lado oscuro de la naturaleza humana. Barcelona: Kairós.

Jung, E. y von Franz, M. (1999). La leyenda del Grial. Desde una perspectiva psicológica. Barcelona.

Microsoft Corporation. (2000). Enciclopedia Microsoft® Encarta® 2000. © 1993-1999.

Robertson, R. (2002). Tu sombra.aprende a conocer tu lado oscuro. España: Paidós.

Salvat. (sfp). Aprender y conocer la astrología y las artes adivinatorias.

Sharp, Daryl (1997). Lexicón Junguiano. Santiago de Chile: Cuatro Vientos Editorial.

Ulanov, Ann . Jung y la religión. El sí-mismo en oposición. En Introducción a Jung.

Von Franz, M. (1993). Érase una vez…una interpretación psicológica. Barcelona: Ediciones Luciérnaga.